Colecione histórias, não coisas
18/03/2026
O colecionismo sempre foi algo bastante atrelado à minha vida. Desde pequeno tive a oportunidade de colecionar livros, principalmente mangás. Sempre foi bastante satisfatório ter uma estante das coisas que eu gosto. Mas com o passar do tempo, fui mudando o foco das minhas coleções.
Lembro que colecionava uma obra chamada Mob Psycho 100. Era quase religioso: todo início de mês eu passava na banca sabendo que uma nova edição estaria lá, e o valor cabia no meu bolso. Estava começando a ganhar as minhas primeiras moedas fazendo bico de design (tinha entre 11 e 12 anos na época).
Foram sete edições dessa maneira. Até que chegou um mês em que ele passou a custar quase 50% a mais do que eu pagava, e o material era exatamente igual ao das outras edições: a capa, o papel. Nada mudou além do preço.
E com muito pesar no coração, peguei o volume inflacionado. Esse foi o último que comprei da série.
Com o tempo também fui me tornando mais adepto da leitura digital. Então os livros físicos que adquiri de alguns anos pra cá são porque: ou estão baratos, ou é alguma edição especial, ou significa algo para mim. Faz um tempo que não “pago pra ver”, e sim “pago o que eu já vi”.
Atualmente tenho colecionado mídia física de filmes e música. Soa um pouco engraçado dizer isso em uma era onde tudo é streaming. Mas não é sobre facilidade, e sim intenção.
Dificilmente as lojas físicas irão bater a Amazon em preço para o consumidor final, isso nos dias de hoje é indiscutível. Mas tem algo que as lojas online não vendem — a história e trajetória até a aquisição.
Honestamente, não lembro quando comprei a maioria das coisas da minha estante que vieram da internet, mas consigo lembrar com muitos detalhes a dor que senti há quase uma década atrás quando o mangá que eu comprava em uma banca aumentou de preço.
Sou do interior da Bahia. Minha primeira viagem para fora do estado (e de avião) foi em 2024 para um evento em Brasília. Durante a viagem fomos a um shopping almoçar, mas ele estava muito cheio. E de frente à praça de alimentação, tinha uma loja de CDs. O pessoal que estava comigo já tinha chamado o Uber para irmos a outro lugar para almoçar, e eu tive um período de pelo menos dois minutos para: convencer eles a me esperarem, entrar na loja, achar algo que me interessasse e sair de lá com alguma coisa.
Felizmente, achei o álbum Revolver dos Beatles. Fui correndo para o caixa e consegui comprar a tempo do Uber chegar. Estou contando essa história pois eu só tive coragem de abrir o lacre dele semana passada, e é um dos itens que tenho mais apreço na minha coleção.
Não é difícil achar ele na internet, pode até ser mais barato do que eu paguei, mas eu nunca teria sentido o que eu senti, ou vivido o que eu vivi, caso eu simplesmente tivesse adicionado ele a um carrinho e esperado chegar na porta da minha casa.
A loja em questão era a Discodil do Conjunto Nacional. Pesquisando descobri que a loja fechou esse ano, depois de 50 anos de atividades. Fiquei feliz por outras pessoas em comentários na internet relatarem memórias como a minha ao saber da notícia.

Muita coisa mudou sobre o ato de colecionar na minha vida. Antes eu sonhava em ter estantes lotadas das coisas que eu gosto. Hoje eu tenho escolhas mais direcionadas e intencionais, priorizando mais o valor e a importância do que de fato a quantidade e o preço.
Na minha opinião, é mais valioso a pessoa ter somente seus álbuns preferidos dos Beatles do que toda discografia. Mesmo que ela goste de todos, sempre há os preferidos.
Outra forma de ilustrar o meu ponto é uma comparação entre lojas de departamento e lojas de grife. As lojas de departamento priorizam a quantidade, sendo mais generalista. Enquanto as lojas de grife possuem uma quantidade menor de peças, mas um valor agregado maior, priorizando a curadoria e o fator identidade.
Para mim, as coleções mais valiosas são aquelas em que as histórias e trajetórias superam os itens em si. Hoje minha coleção é bem menor do que já foi um dia, mas cada item nela carrega uma história. Quem sabe um dia eu fale mais sobre ela aqui.
