Nossa relação com as redes sociais
24/02/2026
Minha primeira rede social foi o Facebook. Minha mãe fez uma conta para mim como presente de aniversário de 6 anos. Pode parecer estranho, mas foi por uma boa causa: a gente tinha acabado de mudar de cidade, então foi uma maneira de eu manter contato com meus amigos de longe.
Mesmo bastante novo, acabei não viciando na rede social — usava somente para fins comunicativos. Acredito que há alguns pontos que podem explicar isso: as redes sociais tinham menos estímulos visuais, um algoritmo menos persuasivo, e eu ainda não entendia o conceito de “web pages”, por exemplo.

Anos depois, a implementação dos stories no Instagram me deixou curioso. Diferente de antigamente, comecei a acompanhar diversas páginas de entretenimento. Até que percebi algo: muito do conteúdo que era publicado lá era um print de um post no Twitter.
Essa reciclagem de conteúdo é bastante recorrente até hoje. Tão recorrente que pode ser até considerada um formato de postagem. E, provavelmente, isso deve incentivar usuários que ainda não têm o X/Twitter a criar uma conta lá. Afinal, se o usuário gostou do print de um tweet, por que não ver mais do que a plataforma pode oferecer?
Quando criei uma conta lá, acabei não gostando logo de início. Por ser uma rede baseada em texto, deve causar estranhamento logo de cara para quem veio do Instagram — uma rede baseada em imagens e vídeos.
A tendência é que você se habitue com o novo espaço. Sabendo mexer na plataforma, fica mais fácil a interação. E quanto mais interação, mais informação para o algoritmo moldar o que você vê, a fim de que você fique mais tempo lá.
O TikTok, por exemplo, tem uma curva de aprendizado muito baixa em relação ao X, e até ao Instagram. Por conta disso, viciar na plataforma de vídeos curtos é bem mais fácil. Já que só basta você ficar deslizando o dedo, como se estivesse procurando algo (só que você não está).
E, na minha opinião, mesmo que o formato de tweets possua uma curva de aprendizado maior, é mais fácil fazer um tweet do que fazer um vídeo para o TikTok. Só que o formato e a curva de aprendizado não vão definir a absorção daquele conteúdo, já que isso depende de como a mente do usuário funciona.
A coleta de dados cada vez mais abusiva em prol de moldar o algoritmo dos usuários tem desmotivado os mesmos a buscarem coisas diferentes. Fazendo com que, ao invés de você querer buscar algo por vontade própria, você busque algo porque o algoritmo lhe mostrou.
Entrar em uma rede social antes era como entrar em um bar e interagir com as pessoas e, por necessidade, ir ao garçom para pedir alguma coisa. Atualmente, ao entrar no bar, o usuário vai direto ao garçom, com a expectativa de que ele já saiba o que você quer (e ele sabe), e às vezes interage com as pessoas ao redor.
Acredito que estar nas principais redes sociais atualmente deve ser uma questão de reflexão. Afinal, pode parecer que você não está pagando para usar aquilo, mas aí entra aquele dilema batido: quando o produto é de graça, você é o produto.
Situações onde pode ser benéfico usufruir dessas plataformas:
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Você está prestes a abrir (ou já tem) seu negócio e precisa de um lugar para divulgar e se posicionar no ambiente digital;
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Você está distante de pessoas que você ama e ainda quer manter uma conexão com elas;
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Você tem um hobby e gostaria de divulgá-lo para outras pessoas do mesmo interesse, sem um propósito inicial de monetizar isso (caso haja intenções financeiras, isso se enquadra na primeira situação);
Agora, situações onde não é benéfico para ninguém estar nessas redes sociais:
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Criar uma conta cujo objetivo é ofender/assediar alguém ou um grupo específico com ideais contrários ao seu;
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Utilizar as redes sociais para enganar pessoas e proliferar informações/notícias sem embasamento ou fonte de origem;
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Usar para passar horas consumindo conteúdos sem propósito e fúteis, sem a interação direta com pessoas.
Isso pode ser meio óbvio de se dizer, mas o que mais tem na internet são posts ofensivos, comentários maldosos e conteúdos fúteis que podem causar cansaço cognitivo e ansiedade aos usuários. Infelizmente, há excesso de conteúdo desse tipo, pois há demanda (de sobra) por ele.
E não estou dizendo que existe um lugar onde isso não acontece. Isso acontece em todos os ambientes digitais onde é possível interação entre usuários. E o usuário baixo-astral, além de estar tendo seus dados e informações coletados, não está fazendo nada para compensar isso, a não ser agregar de maneira negativa à vida de outros usuários, que podem estar fazendo um proveito melhor desse ambiente, com diversos prós e contras.
Vale ressaltar que não estou defendendo as redes sociais que possuem um sistema abusivo de coleta de dados. Apenas ressaltando que esse fator é algo importante a se considerar, já que dificilmente isso irá deixar de acontecer.
Atualmente, vem surgindo uma leva de redes sociais que buscam ter abordagens diferentes das big techs.
O Bluesky ganhou bastante destaque na época em que o X/Twitter estava bloqueado no Brasil, mesmo já existindo opções como Mastodon e Matrix. Na minha opinião, isso aconteceu por o Bluesky ser mais intuitivo em relação a eles.
O Substack (onde este texto está sendo oficialmente publicado) vem sendo a alternativa principal dos usuários que querem um ambiente mais devagar, sem propagandas abusivas e ainda ler algo interessante no caminho. Acredito que a rede tenha esse sentimento de leveza, pois permite que as pessoas produzam conteúdos mais elaborados, geralmente sobre o que é de interesse delas, e não necessariamente do que está todo mundo falando.
Dito tudo isso, desejo que a nossa relação — não só com as redes sociais, mas com a internet em si — seja menos danosa, mais divertida e, acima de tudo, comunicativa. Como foi para mim quando eu era menor.