O paradoxo das estrelas

03/03/2026

Há algum tempo, o PH Santos em uma live falou que não curtia o método de avaliação em números para obras no geral. Isso me fez refletir bastante, e desde então me libertei dessa crença que eu tinha que ter a habilidade de definir em estrelas de um a cinco a minha experiência com alguma obra.

Sempre gostei de plataformas de catalogação como o Letterboxd. Organizar o que assisto, jogo ou leio faz com que eu possa olhar para trás e enxergar meu próprio mapa cultural. Mas quando chegava na parte de dar a nota em números, eu quebrava muito a cabeça.

Se eu desse 4 estrelas para uma obra, ela automaticamente dividia prateleira com outras que talvez não tivessem me impactado da mesma forma. Mas 4,5 parecia excessivo. E assim nascia um paradoxo.

A lógica das médias reforça esse desconforto. Se um filme tem 4.2 no Letterboxd ou lidera rankings no IMDb, isso deveria influenciar minha experiência? Ou se um jogo como Ocarina of Time é considerado o mais bem avaliado no Metacritic, minha vivência precisa dialogar com esse consenso?

Pra mim, não existe “o melhor jogo” ou “o melhor filme” do mundo. Amo jogos de ritmo — e não há nenhum jogo do gênero no top 100 no metacritic. Assim posso concluir que é conflitante eu usar tais parâmetros, sendo que ele não sabe do que eu gosto.

Hideo Kojima utilizou desse consenso em massa ao seu favor. Durante o desenvolvimento de Death Stranding 2: On the Beach, ele realizou mudanças significativas no jogo pois os primeiros testes mostraram que os jogadores estavam achando o jogo “bom demais”. Isso para ele diminuía a capacidade discursiva de uma obra, deixando ela menos polarizada e mais convencional.

Hoje em dia, ainda registro o que eu consumo, e para não ser radical demais, minha única nota é 5 estrelas, assim consigo montar uma prateleira de obras que me marcaram de alguma maneira. E mantenho no meu bloco de notas reflexões sobre as obras que eu consumo: sem a preocupação de alguém ler ou se espelhar naquilo. É algo para mim. Talvez eu possa compartilhar algumas no futuro.

No mais, acredito que tais métricas não devem guiar o nosso gosto ou senso cultural. Uma indicação sem nenhuma pretensão de alguém próximo vale muito mais do que a mesma opinião de milhões de pessoas.

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Curiosidade: atualmente, meu filme preferido é Challengers (2024)

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